Ótimo elenco e direção salvam “Amor à Vida” de seu texto declamado

segunda-feira, 1 de julho de 2013



Passado o entusiasmo inicial com “Amor à Vida” – diante de uma direção inspirada na primeira semana de exibição, e de um vilão, a princípio, cativante (Félix de Mateus Solano) -, a trama de Walcyr Carrasco por fim revelou um apanhado de boas histórias e alguns bons personagens tentando se equilibrar em um texto escorregadio.

O autor é conhecido pela falta de sutileza nas falas de seus personagens e, muitas vezes, pelas frases clichês em situações piegas. Combina com as comédias de época das seis (vide “O Cravo e a Rosa”, “Chocolate com Pimenta” e “Alma Gêmea”). Mas pesa um pouco em um drama contemporâneo. Não fossem alguns núcleos de humor, “Amor à Vida” seria um dramalhão de marca maior.

O melodrama é inerente ao folhetim e a trama central de “Amor à Vida” é um prato cheio para uma boa novela. Somado a isso, um elenco de primeira faz valer qualquer deslize no texto. Carrasco é mestre em costurar suas tramas de forma a envolver o telespectador. Vide a relação extraconjugal de César (Antônio Fagundes) com a carreirista Aline (Vanessa Giácomo), que vai revelando aos poucos que o médico não é tão bonzinho assim. Atílio (Luís Mello) é outro personagem interessante que pode render: deixa o público na dúvida se seus surtos de memória são propositais ou não. Glauce (Leona Cavalli) também é uma personagem em potencial – seria bom se daqui em diante ela se revelasse a grande vilã da novela.

Vale destacar também as ótimas interpretações de Susana Vieira e Nathalia Timberg – esta última, há tempo não tinha um papel tão bom em novelas. No lado do humor, apesar de repetitivas as situações de Valdirene (Tatá Werneck) – em que o texto parece ser sempre o mesmo, mudando apenas os famosos, alvos das investidas da personagem -, ela continua dividindo com a mãezoca Márcia (Elizabeth Savalla) ótimos momentos na novela.

Mateus Solano está irrepreensível no papel do vilão Félix. O personagem é, por excelência, um tipo pouco sutil em suas frases, o que fala o que vem à cabeça, não importa a quem ou a situação. É espirituoso. Mas alguns excessos – mais a exaustiva repetição de seus bordões “pelas contas do rosário” e “salguei a santa ceia” – deixam o personagem à margem do limite entre a caricatura legal e a chatice insuportável.

Nas falas de Félix, dá para perceber que Solano dita palavra por palavra do que Carrasco escreve. O texto do autor soa declamado nas falas de seus personagens, já que ele não gosta de cacos (o improviso ou a contribuição do ator nas falas). Só mesmo bons atores (como os citados acima), em uma direção competente, conseguem contornar diálogos que poderiam parecer teatrais ou pouco condizentes com a proposta naturalista da novela.

Do Blog de Nilson Xavier | Imagem: Reprodução

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