Juíza dá aula de jornalismo e condena Globo a indenizar policial

sexta-feira, 12 de outubro de 2012


A Globo foi condenada no mês passado a pagar uma indenização de R$ 200 mil a um policial militar que, erroneamente, acusara de ter participado do estupro de uma menina de 11 anos dentro de uma delegacia.
Além do valor da indenização, considerado alto, chama a atenção o fato de o caso ter ocorrido há quase 21 anos.

O sargento E.R.J., hoje com 41 anos, tinha apenas 11 meses de Polícia Militar na época. Ele estava de plantão na delegacia de Itapecerica da Serra (Grande São Paulo) no dia 19 de novembro de 1991. Foi preso junto com outros quatro policiais civis.

O caso foi noticiado pelo telejornal local da Globo, na época chamado de São Paulo Já. No Fantástico, ilustrou com destaque uma reportagem sobre policiais que viraram bandidos.

Lição de jornalismo

Assim relata a juíza Alena Cotrim Bizzarro, na sentença que condenou a Globo, dando uma lição de jornalismo:

"A requerida (Globo) alega que apenas cumpriu sua função de informar os fatos, mas não é isso o que se constata quando se assiste ao DVD acostado aos autos pela parte autora (o policial). Para que cumprisse o dever de informar, deveria apenas ter divulgado que o requerente (o policial) era acusado da prática do delito, jamais afirmado que ele praticou o delito, como foi feito".

E prossegue:

"De fato, na reportagem exibida pelo Fantástico há narração do suposto crime de estupro de forma direta, objetiva, como se não houvesse dúvidas de sua prática [...]. Narrando os fatos afirmativamente, menciona a reportagem com relação à vítima (a menor): 'Nesse período, ela foi estuprada por dois carcereiros, um investigador, pelo operador de telex e por um soldado da Polícia Militar que fazia ronda na delegacia'".

A reportagem encerrava mostrando o rosto de E.R.J., o soldado da PM que fazia ronda na delegacia, e informava que ele confessara o crime.

Ocorre que o policial nunca confessou o estupro e ficou marcado por isso.

Alguns meses depois, o repórter policial Gil Gomes, então no Aqui Agora, do SBT, entrevistou a menina, e ela confessou que acusou os policiais injustamente.

A garota revelou que teria agido a mando de um delegado. Soube-se, então, que acusação de era uma "armação" do delegado, que teria propositalmente "plantado" a menor na delegacia.

O delegado teria como alvo o investigador que estava de plantão naquele dia. O investigador supostamente sabia da participação do delegado em um esquema de venda de sentenças judiciais.

Inferno

E.R.J. ficou preso durante um ano e meio. Foi ao inferno e voltou, costuma dizer. Hoje, está casado e tem filhos. Um dos policiais civis teve destino pior: se envolveu com drogas, perdeu tudo.

Inconformado com a acusação de que teria confessado o estupro, o PM tentou processar a Globo três vezes. Seus advogados, conta, sempre perdiam prazo ou deixavam de pagar alguma taxa de valor irrisório, mas que impediam o andamento do processo.

Até que em 2010 ele conheceu o advogado Álvaro Nunes Júnior. Nunes pediu R$ 300 mil de indenização. "Ele foi acusado de uma coisa terrível", justifica o advogado. A Justiça concedeu R$ 200 mil.

Cabe recurso.

Procurada, a Globo não comentou o caso, por estar sub judice.

Do blog do Daniel Castro | Imagem: Reprodução

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